domingo, julho 30, 2006


Entrevista com Gedeone Malagola
por: Oscar Kern, 1981


Nessa entrevista concedida a Oscar Kern em 1981, Gedeone nos conta um pouco sobre sua vida profissional. O início da carreira nas editoras paulistas, a criação de personagens, a importância do roteiro, as imitações, os gêneros, adaptações da tv e literatura para os quadrinhos, os amigos com quem trabalhou e os artistas que adimira. Conta também que ganhou dinheiro com quadrinhos, apresentou Maurício de Sousa ao mercado e como foi parar em X-Men, Thor e outros personagens de Stan Lee e Jack Kirby.

Uma ótima entrevista que nos da a dimensão da grandiosa colaboração de Gedeone a Nona Arte brasileira.

Boa leitura
d.hayashi

Kern: Gedeone, qual é o seu método de trabalho, e que materiais ultiliza?

Gedeone: Quando desenhava e escrevia, produzia o argumento de dia e desenha a noite inteira, e costumava enmendar dois ou tres dias. Cheguei a desenha e escrever uma história do professor pinguim de 11 pgs em 24hs!
Não consigo mais fazer isso. Minha média é de página e meia por dia, um dia de 17 ou 18 horas!

Kern: E o material...?

Gedeone: Não é sofisticado. Qualquer papel de desenho, usava um de bloco, comum, pincel numero 2 ou 3, e pena mosquitinho. E retícula. Não sotumo desenhar grande, pois se perde na redução. O desenho a pincel é mais rápido. Raramente letreiro minhas estórias, marco na página em branco o local onde vai o texto e entrego ao letrista, e só depois desenho. Sempre gostei das letras do Isidoro Gromberg e do Arthur Giampolo Jr.

Kern: Qual o tamanho de seus originais?

Gedeone: Para o tamanho padrão de gibi e tira de jornal, quse sermpe usei a altura do quadrinho com 10 ou 11 centímetros, pois não se perde muito na redução, e a redução é algom importante, muito mesmo! Tudo que sei sobre redução devo ao mestre Milton Caniff, de Steve Canyon e Terry e o s Piratas.

Kern: Dá para se saber alguns dados pessoais, e como foi o inicio de sua carreira?

Gedeone: Nasci em São Paulo, Capital, a 7 de julho de 1924. Estudei desenho com meu pai, que era pintor artístico. Cursei arquitetura e acabei me formando em Direito. Sou casdado e pai de um casal de filhos. Comecei desenhando para o jornalzinho A Marmita, de pois O Governador e a seguir quadrinhos para as editoras Novo Mundo, Júpiter, Vida Juvenil, La Selva, Continental, Outubro, GEP, Edições Paulinas, Taika, Edrel, M&C, Bentivegna, sem falar em uma passagem pelo Rio Grande do Sul, onde produzi A Vida do Padre Reus, que nem cheguei a ver.
Miguel Penteado, dono da GEP, foi o editor que mais chances deu ao artista brasileiro. Chegou a ter mais de quarenta desenhistas efetivos, além dos roteiristas. Uma coisa muito importante, as editoras em geral tem muitso desenhistas, mas poucos roteiristas. Isso é uma falha, o argumento é muito importante, não adiantas um bom desenho sem uma boa estória. Muias vezes, quando eu procurava serviço de desenho, era convidado a escrever.

Kern: Você, que é dos mais ativos autores de HQ, diga lá, quantas páginas já produziu, até hoje?

Gedeone:
Sinceramente, não sei, contando o que escrevi para revistas de contos, ou de reportagens, como contos para Reporter Policial, para A Marmita, para O Governador, para Emoção, Contos de Terror e para a revista O Homem do Sapato Branco de meu amigo Jacinto Figueira Jr., e ainda para a televisão como escritor fantasma, livros de bolso e centenas de histórias em quadrinhos (quadrinho de 1942 a 1976) calculo cerca de mil e quinhentas estórias, sendo que até mil e poucas eu tinha anotadas em um livro que perdi. Perdi esse livro e muito material meu em uma enchente, inclusive cópias em couchê das aventuras de Jim das Selvas de 1938. Meu último livro saiu em 1979, só não direi o título.

Kern: Dá para dissertar mais um pouco sobre suas andanças pelas editoras paulistas?

Gedeone: Comecei minha vida profissional escrevendo e fazendo quadrinhos para a Novo Mundo, de Vitor Chiodi, isso em 1942, na revista Comico Colegial. Fundei com o tempo, várias revistas, como Congo King, Tambu (meu personagen brasileiro tipo Tarzan), Jane West, Professor Pinguim, Capitão Wings, Capital Astral, Aventuras no Sertão com Miltorn Ribeiro O Cangaceiro. Para a La Selva, com direção de Miguel Falcone Penteado, fiz, entre outras coisas, continuações de personagens amercicanos de grande vendagem aqui, e cujas estórias haviam terminado na fonte ( com prévia autorização do sindicato – assim como Fantasma e Mandrake foram feitos por Walmir Amaral, Jim das Selvas pro José Menezes, e ainda Flecha Ligeira, Àguia Negra e outos, inclusive o gênero Terror, que, proibido nos States, foi a grande chance do artista brasileiro ), como Tor de Joe Kubert, Juju Faísca de Gene Fawcett ( na versão brasileira introduzi novos personagens, como Meio Fio, Torradinha, Catuta). Foi em Juju Faísca que apresentei Uk e Uka, dois garotos da Idade da Pedra, que depois se tornaram revistas e tira de jornal. Escrevi Fly Man, de Jack Kirby, com desenho do Luiz Rodrigues, e Millie The Model/Lili, de Stan Lee.

Para a editroa Vida Juvenil, sob a direção de Mario Hora Jr., escrevi e desenhei Milton Ribeiro O Cangaceiro, e ainda personagens famosos como Ruy Barbosa, Oswaldo Cruz, Castro Alves e outros, e quadrinhizei romances nacionais como O Guarani, Iracema e Ubirajara, todos de José de Alencar.

A maior chance dos desenhistas brasileiros surgiu com a Editora Outubro, fundade por Miguel Penteado, Jayme Cortez e outros, e que só trabalhavam com material genuinamente brasileiro, apesar de muitos pseudonimos estrangeiros, e surgiram revista como Zatraz, Bidu, Jet jackson da tv americana, Capitão 7 da tv brasileira, clássicos de terror, Drácula, Targo e muitas outras. Muita gente escreveu e desenhou esses personagens, inclusive o famoso Vigilante Rodoviário, primeira serie da tv brasileira. Naquela época, levei o jovem Mauricio de Souza, por acreditar em seu valor, e começou a revista Bidu, de curta duração.
Depois, Miguel Penteado fundou a GEP, e passei a escrever humor, terror e faroeste, e bolei duas revistas que fizeram sucesso, Lobisomem e Múmia, onde Sérgio Lima desenhava e eu escrevia. E surgiram imitações! Ainda escrevia e desenhava Raio Negro, e escrevia Mundo dos Gigantes (álguns trimestrais com 100 pgs), com desenhos de Paulo Hamasaki e Moacir Pereira. Naquela época, escrevendo e desenhando, usei mais de vinte pseudonimos, como Daramór, Gene, Rick Starkey, Johny Sanders...

Na Editora Prelúdio, fui diretor de quadrinhos e escrevi Simãozinho, revista infantil, e Juvencio, O justiceiro do Sertão, baseado nos personagens do radio.
Para jornais, fiz tiras diárias dos personagens Uk e Uka, Kold o Vicking, Capitão Astral, Meio Fio e Homem Lua, e estórias de Terror, completas, em uma pagina de jornal.
Ainda pra a GEP, fiz thor e X-Men da Marvel. Uma explicação importante, a revista americana vinha com vinte páginas de quadrinhos e doze de publicidade. O sindicato vendedor autorizava o editor a completar a revista com estórias feitas aqui, cedendo os personagens e assim aconteceu, eu e outros autores passamos a escrever e desenhar os personagens da Marvel. E deu galho, um violento protesto da Ebal que publicava os referidos personagens. Escrevi e desenhir dezenas de personagens como Zora, Koreme, Tambu, Eletra, Jane West, Hydroman (com desenho de Momoki Akimoto), Juca (desenhos de Almir Vortolassi), Meio Fio, Corsário Verde, Jacarão, Kid Benson, Sepulcro, sendo as revistas da editora Júpiter, que era uma editora dentro da Novo Mundo. Escrevi e desenhei as aventuras de selva com Hur (desenho de Wilson Fernandes), personagens infantis para revista Meninada, de Antonio Duarte, e o faroeste Kakot Jim, com desenho de Nico Rosso...A lista é lonnnnga! Mas quero fazer dois agradecimentos, dois destaques, senedo um para o Suplemento Juvenil do Sr. Adolfo Aizen, onde praticamente aprendi a ler e tomei gosto pelo desenho, decidindo-me a seuir a carreira, e o outro pra Milton Caniff, que lá de longe e orientou, enviando desenho e conselhos, ensinando-me reudção e roteiro.

Kern: Você sabe quantos personagens criou?

Gedeone: Não lembro, fiz muita coisa importada, muita cópia que o editor pedia, e fiz muita coisa minha. Adaptações de romances brasileiros, criei personagens brasileiros, adaptei muitos cássicos de terror para arevista do mesmo nome. Criei o que o Capitão Astral foi um de meus primeiros personagens, e a última HQ que desenhei foi um conto de Maupassant, para a editora M&C, A Casa Assombrada.

Kern: Ainda possui os originais de todas as suas HQ´s, ou pelo menos possui as revistas que sairam?

Gedeone: Não e explico porquê, os editores ficavam com nossos originais e posteriormente os inutilizavam. Lutei muito pra mudar esse estado de coisas. Quantas e quantas capas de Jayme Cortez ou Miguel Penteado foram rasgadas! Mas quando Miguel fundou a GEP, devolvia todos os originais aos autores, os de antes, poucos tenho em meu poder, nem as revistas que os publicaram. Não tenho o número um de A Múmia, e isso é recente! Há pouco, Vitor Chiodi, da Júpiter, veio me pedir um exemplar que ele mesmo editou em 53, para provar tempo de serviço e se aposentar no INPS. Revistas antigas são difíceis de encontrar.

Kern: Qual foi sua melhor HQ?

Gedeone: Sempre gostei de estórias infantis, e nesse gênero gosto muito de Meio Fio e UK e UKA. No gênero aventura prefiro Homem Lua, que Maurício, da Mônica, o cineasta Roberto Miller e muitos outros acham a melhor coisa que já fiz. Terror, apesar de haver escrito Drácula, Mumia e muitos outros, prefiro Lobisomem. E o brasileiríssimo Milton Ribeiro O Cangaceiro.

Kern: Fale sobre o Guarani.

Gedeone: Para mim, e a obra de José de Alencar que mais se presta ao quadrinho. No meu livro Jornada Nos Quadrinhos, abordo essa parte com mais detalhes. Considero o Guarani de Franciso Acquarone, editado pela Correio Universal, a melhor versão até hoje. A de Nilo Cardoso para a La Selva também é muito boa. A pior é a do meu amigo Jayme Cortez, em um de seus primeiros trabalhos em tria para jornal. A de André Le Branc, para a Ebal é ruim, com muito texto e desenho confuso. Quanto ao meu O Guarani nem quero falar.

Kern: Você se considera realizado?

Gedeone: Sempre que pergutnam isso a algum artista, ele diz que sim. Eu acho que sempre se quer fazer algo mais. Escrevi e desenhei por gostar e nem tanto por precisar, mas ganhei muito deinheiro com os quadrinhos, não posso reclamar. Mas para me realizar, só falta conseguir editar meu livro, Jornada nos Quadrinhos.

Kern: Tem mágoas na campo dos quadrinhos?

Gedeone: Realmente, no meio de tanta luta, semprehá os bons e os maus momentos, mas os bons prevalecem. Se tivesse que recomeçar, faria tudo outra vez, da mesma forma.

Kern: Qual o melhor quadrinho, atualmente? Brasileiro, americano ou Europeu?

Gedeone: Personagens brasileiros como título de revistas quase não temos. Tem gente trabalhando aqui e ali, tentando a sorte. Dessa nova leva, gosto de Watson Portela, que não conheço pessoalmente. Pode ter gente melhor que ele, mas gosto de desenhos limpos, onde se olha e se entende tudo, como Rip Kirby de Raymond ou DR. Kildare, de Ken Bald. Dos quadrinhos americanos, atualmente, quase tudo é feito por europeus, filipinos ou sulamericanos, que com um técinca renovadora balançaram o coreto dos desenhistas americanos. Nota-se um Nestor Redondo, um José Ortiz, Victor de La Fuente, Estebam Maroto, José Gonzales, Azpiri, Alex Niño...dos americanos, tem gente boa, como Wallace Wood, Al Williamson, Paul Nelry, Ken Bald, Frank Thorne, John Buscema, Tony de Zuniga em Conan, Alfredo Alcala, Dan Adkins, sem falar na velha guarda. José Maria del Bó, que trabalhou no Brasil, fazendo o faroeste Colorado, nos US desenhou Batman e agore é efetivo em Mulher Maravilha. Um bom artista, que não conseguiu trabalho no Brasil...

Kern: Você mencionou um livro seu, Jornada nos Quadrinhos, fale a respeito.

Gedeone: Jornada nos Quadrinhos custou quase oito anos de pesquisa, tem 700 páginas de texto mais as ilustrações. Quando escrevi o livro, resolvi misturar os assuntos, pois assim não falaria apenas sobfe a época de ouro dos quadrinhos e facando logo sem outros assuntos interessantes. Trato dos quadrinhos no mundo inteiro, seus autores, curiosidades, relaciono todos os quadrinhos que foram filmes seriados, e dou a ficha técnica dos filmes. Faldo dos filmes europeus baseados em quadrinhos com, Paul Temple, Perry Rhodan, Isabella...
Quando falo dos policiais, faldo dos quadrinho, de Dick Tracy, dos enlatados, das revistas...Quando faldo de Alex Raymond, faldo dos seus personagens, de Flash Gordon (sabia que o enlatado Flash Gordon para a Tv americana foi produção alemã? O astro foi Steve Holland, que serviu de modelo para Bob Colt dos quadrinhos...sabia que Alex raymond baseu Flash Gordon em Randolph Scott? Dale Arden em Mary Astor? Ming em Basil Rathbone?) na tv, de Jim das Selvas na tv...analiso todos os desenhistas de Flash Gordon, e coloco a ficha técnica e o resumo dos seriados. Quando faldo de Tarzan ou de Buck Rogers, cito seus autores, suas obras, todos os seus filmes, com ficha técnica e resumo dos argumentos, e o mesmo faço para Batman, Super Homem, Dick Tracy, Fumanchu, Rod Ryder, Don Winslow, Terry e os Piratas, Falcão Negro, Tex Granger, Tailspin Tommy e mais uma infinidade...Analiso os mais famosos personagens de todo omundo, analiso também as editoreas brasileiras, e tenho centenas de fotos, cartazes, desenhos e milhares de revistas para ilustrar tudo isso.

Kern: Quais as melhores HQs publicadas atualmente no Brasil?

Gedeone: das estrangeiras, Zephyd, Um homem uma Aventura, Homem Aranha, Tarzan, Flash, Zorro/Lone Ranger, Tex, Fantasma de Barry e, nacionais, Cacá de Ely Barbosa, Os trapalhões, o segundo número de Carga Pesada, Comanchero de Watson Portela e Chet.

Kern: Qual a melhor HQ de todos os tempos?

Gedeone: Um perguntinha difícil de responder. Até hoje, os maravilhosos álbuns de Flash Gordon da Ebal são expetaculares. Fantasma, de Falk, já teve coisas exelentes, Mandrake, idem. Hoje, quem suporta Mandrake? Vide de glórias do passado. Pessoamente, gosto muito de Milton Caniff com Terry e Os Piratas, mas seu Steve Canyon é chato. Adoro Frank Robbins com seu Johny Hazard. Curiosamente, sempre gostei de Buck Rogers, apesar de seu desenho fraco. Mas, em matéria de arte final, cnários , paisagens, efeitos de luz e sombra, cenas de batalhas, detalhes perfeitos, nada se compara a Principe Valente, de Harold R. Foster. Jamais alguém colocou nos quadrinhos a naturesa com tanta perfeição! Notem suas árvores, o mar agitado, água corrente, quedas d´água, montanhas...tudo perfeito! Nesse ponto, bem superior a Raymond, de quem Foster era admirador, e vice-versa!

Kern: Atualmente, qual a melhor revista de HQ?

Gedeone: Um Homem Uma Aventura, Clássico da Década...verdadeiramente, quase tudo que é da Ebal tem muito apuro técnico e qualidade. A RGE só tem de bom o Fantasma, apesar da imensa quantidade de reprises. A Grafipar tem o bom Comanchero. A Abril, para quem aprecia o fênero infantil, tem uma enormidade de revsitas. Mônica e Pato Donald agradam, apeas de ser sempre a mesma coisa. A Vecchi, para quem fosta de faroeste, tem os bons TEX, Zagor e Chet. Mas em tudo isso, prefiro as edições especiais, os bons álguns da EBAL.

Entrevista originalmente publicana no Historieta nº 5, 1981